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É uma Carmem que, com certeza, você nunca havia assistido.

Ou melhor ainda, que você, posso arriscar, nunca esperaria assistir.

A produção de Carmen, do diretor Barrie Kosky, está em cartaz na Royal Opera House de Londres.

Estreou em 2016 em Frankurt, passou por Londres no ano passado e agora retorna para Covent Garden na temporada de inverno. Esta Carmem, criada pelo australiano Kosky, diretor da Komische Oper Berlin, companhia com sede em Berlim, é livre de tradições, de convenções e também dos clichés que estamos acostumados.

Está aí justamente o ponto alto para quem vai em busca de algo novo. Porém, para aqueles vão ao teatro cheio de expectativas e referências, pode ser a armadilha.

O palco é o da Royal Opera House, uma das companhias de repertório mais tradicionais do mundo e também uma das mais incensadas.

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E esta coprodução tem tradição mesmo só no nome.

A Carmem de Kosky é surreal, é andrógina é pós-moderna.

Inclui trechos e músicas que foram cortados da montagem original. O próprio diretor explicou que a primeira montagem foi após a morte de Bizet, com base em anotações e, por isso, se sentiu confortável e com liberdade de editar a obra de outra maneira.

Nesta Carmen também não fica claro que a história se passa na Espanha. Tem o toureiro, o figurino que remete, além da fábrica de tabaco. Mas, de resto, poderia ser ambientada em qualquer país.

Por fim, esta Carmen é narrada. Kosky, em entrevista ao The New York Times, justificou o recurso:

– Uma das diferenças em nossa versão é que nós continuamos com a ideia de que a peça foi escrita com um diálogo falado entre os elementos musicais, porque era uma “opéra comique”. Mas nós não fazemos diálogo falado entre os personagens; nós temos um narrador.

Um narrador que pontua a história, em leitura dramática e por vezes sensual. Talvez esta seja a “criação” que mais tenha me agradado nesta montagem. Que realmente dá outra leitura a conhecida obra de Bizet, a mais encenada em palcos pelo mundo.

A palavra dita e não cantada, a palavra reproduzida pelas caixas de som no além e, não declamadas pelos artistas no palco, ganha até outro significado. Dá espaço para um interpretação mais cuidadosa.

Fora isso, as outras liberdades criativas podem chocar e talvez tenham sido pensadas justamente com este fim.

Esqueça os vestidos de decotes insinuantes. Esta Carmen surge de calça, camisa, cabelo puxado para trás. Um visual que remete a Marlene Dietrich. Mais Dietrich? Numa clara homenagem a Blonde Venus, esta Carmen também aparece vestida de gorila. Sim, você leu certo.

Surpresas, outras propostas que, para aqueles com apetite para mudanças, onde me incluo, torna a performance curiosa, provocativa. Por vezes é debochada e até desconfortável.

Na trama, senti falta da tensão crescente entre os personagens. Demora um pouco a percepção do jogo de sedução entre Carmen e Don José, que por vezes não parecem tão conectados.

Parte do enredo central da trama, a tensão entre controlar e ser controlado, se materializa, curiosamente, no cenário minimalista desta montagem.

No palco, nos três atos, uma  escadaria de 16 degraus ocupa boa parte do espaço. É nela que o coro canta, desenvolve as coreografias e desce e sobe numa movimentação dinâmica. Tão dinâmica que pode lembrar os musicais e não uma opera. E é nesta escadaria também que o casal protagoniza o momento mais cênico do espetáculo, nas extremidades, amarrados por uma corda.

Como eu disse no início deste texto, é uma Carmen que, com certeza, você nunca havia assistido. Talvez seja para iniciados, mas somente para aqueles que se deixam surpreender por outras leituras de uma obra tradicional. Que veem beleza na ousadia e na criação de uma leitura autoral de algo tão clássico. Se não for com este espírito ao teatro, então, esta, não é uma montagem para você.

Afinal, esqueci de dizer, esta Carmen é também afinada aos dias de hoje. É empoderada, militante do  #MeToo movement. Mas isto terá graça se você for e conferir ao vivo.

Por Fernanda Zaffari/Fotos Royal Opera House